“O Mecanismo”: Corrupção e Autoconhecimento

“O Mecanismo” é um seriado lançado pela Netflix. Trata dos bastidores da Operação Lava Jato da Polícia Federal e envolve personagens fictícios relacionados a personagens reais que tomaram de conta dos jornais brasileiros nos últimos anos. Mais uma obra com a participação de José Padilha que esteve por trás de grandes obras como “Ônibus 174” (2002), “Tropa de Elite: Missão Dada é Missão Cumprida” (2007) e “Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro” (2010). O diretor já havia trabalhado em uma outra série pela Netflix: “Narcos” (2015).

Confira o trailer da série:

 

Marco Ruffo e o Mecanismo da Corrupção

O personagem central de O Mecanismo é Marco Ruffo, um policial federal aposentado que seria o principal iniciador da Operação Lava Jato.  Aposentado, contudo, contra a sua vontade por entrar em uma área que não deveria. Marco Ruffo faz uma interessante reflexão que trago sem querer ser o spoiler da trama.

Um dia estoura um cano de esgoto em frente da casa de Marco Ruffo. Por este motivo, ele solicita à estatal que cuida do assunto para que alguém venha realizar o conserto. O funcionário, porém, avisa que o conserto, pelo trâmite legal, demoraria cerca de duas semanas. Como alternativa, o funcionário avisa que Marco poderia falar com João, uma pessoa que resolveria o problema em apenas um dia. Por outro lado, João cobra R$ 600,00 reais pelo serviço e acrescenta que o dinheiro não fica todo para ele. A maior parte vai para o sistema de pessoas que indicou seu nome para Marco Ruffo.

É a partir disso que Marco Ruffo percebe que tudo se trata de um mecanismo. Desde a corrupção de um funcionário público ao lidar com um simples conserto até Brasília. Ruffo percebe que há corrupção em todo lugar e que, em cada ponto, há uma nova peça que alimenta o mecanismo. Esta seria. portanto, a forma de funcionamento das coisas por todo o país. Por este motivo, Ruffo nega os serviços do João e tenta corrigir o vazamento de esgoto por conta própria.

Inspirada em fatos reais.

O tema da série O Mecanismo envolve a alusão a grandes nomes que vimos nos jornais brasileiros entre 2014 e 2018. Além disso, a série traz à cena os crimes que envolvem tais nomes. Assim, isso não poderia deixar de gerar muita polêmica.  Em resumo, a série mostra o financiamento das campanhas brasileiras, através de métodos escusos, por algumas das maiores empreiteiras do país.  Como se não bastasse isso, entre as campanhas financiadas, estão as duas maiores: a de Dilma Rousseff e a de Aécio Neves. 

Em consequência, surgiram várias investigações da Polícia Federal utilizando o nome de “Operação Lava Jato”. Deste modo, pouco a pouco, políticos, empreiteiros e outros ligados ao esquema começaram a ser conduzidos à prisão. Entre eles, Romero Jucá, que é do mesmo partido de Michel Temer. Jucá, ao perceber que as investigações se aproximavam de seu grupo político, sentiu-se ameaçado. Numa das investigações, caiu na mídia uma gravação em que Jucá e seu interlocutor, Sérgio Machado, falavam sobre a necessidade de “estancar essa sangria”. Para tanto seria necessário impedir Dilma Rousseff através de “um grande acordo nacional”. Ambos falavam, inclusive, da importância de incluir o STF neste acordo. Portanto, a meta final deste grupo político era impossibilitar o avanço das investigações.

Coincidentemente, tempos depois, Dilma Rousseff foi impedida sob alegação de ter cometido pedaladas fiscais. Em seu lugar, Michel Temer assumiu a presidência e tem enfrentado, desde então, vários escândalos de corrupção e alta rejeição da população. 

A polêmica da troca de falas

Na série há várias figuras conhecidas, entretanto, todas estão com nomes trocados. Em determinada passagem de O Mecanismo João Higino fala que “é preciso estancar essa sangria”. Higino é inspirado no ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. No entanto, a fala verdadeira surgiu a partir de um grampo de Romero Jucá, um inimigo político de Lula. Por este motivo, a série virou assunto de calorosas discussões na internet. Assim, é preciso que façamos um resumo simples dessa polêmica.

Há pessoas que rejeitam o uso da fala de Romero Jucá pelo personagem João Higino. Inclusive, o próprio Lula comentou que processaria a Netflix. O motivo é que isso seria uma forma de transferir ao Lula e ao seu grupo político a voz daqueles que tramaram para o impedimento de Dilma. Além disso, o grupo opositor também tentava cessar as investigações por meio disso. Em conclusão, aqueles que rejeitam a série defendem que ocorreu uso de má fé na forma como a história foi contada. A troca das falas estaria, portanto, embasada em interesses políticos de difamação.

Por outro lado, há quem veja tudo de um ponto de vista mais artístico. Neste caso, João Higino representaria muito mais do que o ex presidente Lula. Ele representaria a classe política de modo geral. Ou, em outras palavras, como se não existisse diferença entre os políticos. Ou ainda, como se não importasse se a fala original veio de um ou de outro. Assim, os políticos representariam uma classe só toda encaixada em um mecanismo que movimenta, e ao mesmo trava, o funcionamento do Brasil.

 

Nós temos um papel na corrupção deste país?

Sem dúvidas, a série traz profundas reflexões que nos provocam de várias formas. Todavia, quero falar de um deles: a corrupção. Mas não quero falar sobre esse tema de forma distante. Quero aproximá-la de nosso dia-a-dia. Aproximá-la de nós mesmos.

Será que cada um de nós não tem um pequeno papel na corrupção deste país? Seja na tentativa de sonegar impostos ou em coisas simples como negar o troco correto do pão na padaria. Talvez na forma como alguns pirateiam filmes ou algum outro material audiovisual através da internet. Quem sabe um programa de computador pirata? Ou quem sabe esquecemos de avisar ao garçom em um restaurante que ele esqueceu de incluir um produto que, de fato, consumimos?

Isso tudo me lembra de uma frase de Jung, um dos grandes psicólogos de todos os tempos que disse uma vez o seguinte:

“A psicologia do indivíduo corresponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age a nação também agirá. Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a transformar-se a psicologia da nação. Até hoje, os grandes problemas da humanidade nunca foram resolvidos por decretos coletivos, mas somente pela renovação da atitude do indivíduo.”

Carl Gustav Jung
(1875 – 1961)

A reflexão que fica é que se nós queremos realmente transformar este país, a mudança deverá começar em cada um de nós. Que cada um perceba em si as sombras daquilo que não consegue perceber. Tenhamos certeza disso: autoconhecimento é a chave de profundas transformações.

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Psicólogo pela Universidade Federal do Ceará com especialização em Neuropsicologia e aprofundamento em Abordagem Centrada na Pessoa. Atua em Fortaleza – CE oferecendo atendimento individual para adultos ou idosos.